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Um Pouco de Ar, Por Favor!
O pré-conceito que nos leva a ignorar tudo aquilo que não atinge as nossas expectativas, em todas as áreas artísticas e literárias. O que realmente esperamos?
Escrito por Duanne Ribeiro em 19/02/2010
Suposta marca de alienígenas em plantação de Hampshire, em 2003. Tema foi abordado no filme 'Sinais', de M. Night Shalayaman
Eu li "Um Pouco de Ar, Por Favor!", de George Orwell, e não me lembro de uma só palavra do livro.
Nenhuma cena, nenhuma passagem - quando tento me recordar de qualquer uma de suas páginas, elas não vêm; fora a lembrança de uma sensação geral de angústia, tédio e frieza, decepção, no ambiente do livro (coisa que também se sente às vezes em Graciliano Ramos).
O livro se desvaneceu completamente da minha memória. Não posso sequer dizer-te se é bom ou ruim, se vale ou não a pena. Sumiu! Quem sabe quantos segundos logo após de haver terminado a última folha: acabou-se! E a surpresa nisto tudo reside no fato de que isso não é culpa do livro, mas do modo pelo qual o abordei. Foi a minha postura frente a ele que fez que fosse menos que nada, fui eu que insisti em não ver o que ele era e unicamente enxergar o que eu queria que fosse. Descartei palavra após palavra. Portanto, esqueci tudo. Isso acontece noutras vezes, com filmes, CD's, jornais, revistas e outros livros. A mente vem e pergunta: serve? E eu lhe digo: não me dá o que eu quero. Pronto: arquivado e esquecido. No caso específico de Orwell, o problema todo foi que eu tinha uma imagem prévia do que deveria ser um livro dele. Antes desse, havia lido (como todos os pseudo-revolucionários) o "1984" e também "A Revolução dos Bichos". O primeiro fala sobre um futuro distópico em que todos os gestos, sentimentos e pensamentos da sociedade são controlados pela onipotente, onipresente e (quase) onisciente toda poderosa instituição cujo símbolo é o Grande Irmão, o ser que coordena todo o governo e ao qual todos devem culto. É uma obra "anticomunismo", pelo menos o comunismo que estava sendo implantado na União Soviética na época. Mas a história também pode ser vista contrária a qualquer movimento que restrinja a liberdade.


Ao lado de "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, que também fala de uma sociedade controlada - só que desta vez por um planejamento científico e genético sem defeitos, que garante a felicidade de cada membro do grupo - foi o que deu origem ao filme "TXH 1138", o primeiro de George Lucas, ao "A Ilha";e creio que também a "Matrix" e ao pano de fundo de "O Demolidor", com o Silvester Stallone.

"A Revolução dos Bichos" é uma fábula sobre os animais de uma fazenda - vacas, cavalo, corvo, etc - que, liderados pelos porcos, realizam um 'golpe de estado', expulsando seus donos e tomando o controle do lugar. Iniciam o que seria a sua era de felicidade, sob o lema: "todos os animais são iguais". Mas, gradualmente, se forma novamente uma classe dominante - os porcos, cada vez mais tranvestidos de humanos - e uma classe dominada - os restantes animais. Os porcos reescrevem o lema: "Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que outros". George Orwell escreveu nesses dois livros em que o conheci sobre indivíduos torturados a ponto de crerem que "dois mais dois são cinco", até que fossem dóceis e inofensivos, tal qual acaba sendo o protagonista de "Laranja Mecânica". Essa era a imagem prévia que tinha dele e era o que eu esperava de uma outra obra sua. Só que "Um Pouco de Ar, Por Favor!" ao que parece não tinha esse propósito. Sucessivamente procurei por regimes totalitários, por olhos em todo lado, pela opressão ideológica, pelo homem esmagado e sucessivamente isso tudo me foi negado. Acabada a história, estava pronto para ignorar tudo que não fosse como eu queria - ou seja, tudo, mesmo - e, em seguida, catalogar aquele como um Orwell ruim. O fato é que nunca saberei o que perdi. Deixando pra lá minha expectativas, teria percebido o que havia de único naquele livro em particular, sua técnica, seus recursos, sua história.

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