A interação e a ausência de ligação. A solidão e a psicologia sobre os relacionamentos humanos, entre as pessoas ou de forma intimista, por Duanne Ribeiro.
Foi sugerido a um grupo de escritores o tema "encontros e
desencontros", e eu participei da produção coletiva. Para falar do
assunto, vou comentar sobre o filme traduzido com este nome por aqui, e
"Whisky", filme uruguaio.
"Encontros e desencontros"
já sugere histórias só por estar assim disposto: temos memórias de
encontros e também temos a nossa parcela de desencontros - e enquanto
olharmos só para o primeiro a vida parecerá doce, quando lembrarmos do
segundo veremos a vida amarga. Mas colocar os dois juntos na mesma
frase indica um processo em que um segue o outro, ou uma nuvem de fatos
em que um afeta o outro, em que são partes da mesma coisa. A vida,
considerando ambos, é doce ou é amarga, no fim das contas? É agridoce?
É um samba? É travessia?
As três palavras juntas são quase como
um verso, me surgem densas como um poema. Nos meus momentos mais
otimistas (ou mais desesperados, que acabam fazendo nascer um tipo de
otimismo de resistência) repito o trecho de
Fernando Sabino: "
estaria
sempre começando e serei interrompido antes de terminar. Fazer, da
interrupção, um caminho novo; da queda, um passo da dança; do medo, uma
escada; do sono, uma ponte; da procura, um encontro". E, nos momentos de maior pessimismo, estou com
Thom Yorke em "
There, There": não é porque você sente que alguma existe ou devia existir que essa coisa realmente existe; e com
Robert Smith, em "
The Forest", procurando em meio às árvores uma menina, porém "
the girl was never there... its always too late. Again and again and again and again".
Passeie comigo pelo meu otimismo. Em
"Encontros e Desencontros",
há a seguinte cena: de camisa azul, a garota se recosta contra uma
ampla janela; atrás dela, a cidade imensa. Desde que vi, a imagem me
ficou como símbolo de um tipo de solidão. Como canta o
Morrissey,
quando você quer viver, aonde você vai, quem você precisa conhecer?.
Repara na cidade tão vasta e na menina agarrando os joelhos, na posição
que, segundo os psicológos, é uma simbolização do feto, da vontade de
voltar ao útero, a segurança. É nesse mundo imenso e vasto e não-seguro
que, pelo acaso, pelo atalho imprevisto, ela acaba conhecendo uma outra
pessoa, tão solitária quanto ela (mas talvez um outro tipo de solidão)
e, por algum tempo, esses dois se completam. Nem eu nem Encontros
falamos só de amor. Essa completude que pode acontecer de uma hora pra
outra está na amizade, nos livros, nos discos, nos desejos...