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Encontros e Desencontros
A interação e a ausência de ligação. A solidão e a psicologia sobre os relacionamentos humanos, entre as pessoas ou de forma intimista, por Duanne Ribeiro.
Escrito por Duanne Ribeiro em 23/01/2010
Foto: Reprodução
Foi sugerido a um grupo de escritores o tema "encontros e desencontros", e eu participei da produção coletiva. Para falar do assunto, vou comentar sobre o filme traduzido com este nome por aqui, e "Whisky", filme uruguaio.
"Encontros e desencontros" já sugere histórias só por estar assim disposto: temos memórias de encontros e também temos a nossa parcela de desencontros - e enquanto olharmos só para o primeiro a vida parecerá doce, quando lembrarmos do segundo veremos a vida amarga. Mas colocar os dois juntos na mesma frase indica um processo em que um segue o outro, ou uma nuvem de fatos em que um afeta o outro, em que são partes da mesma coisa. A vida, considerando ambos, é doce ou é amarga, no fim das contas? É agridoce? É um samba? É travessia?

As três palavras juntas são quase como um verso, me surgem densas como um poema. Nos meus momentos mais otimistas (ou mais desesperados, que acabam fazendo nascer um tipo de otimismo de resistência) repito o trecho de Fernando Sabino: "estaria sempre começando e serei interrompido antes de terminar. Fazer, da interrupção, um caminho novo; da queda, um passo da dança; do medo, uma escada; do sono, uma ponte; da procura, um encontro". E, nos momentos de maior pessimismo, estou com Thom Yorke em "There, There": não é porque você sente que alguma existe ou devia existir que essa coisa realmente existe; e com Robert Smith, em "The Forest", procurando em meio às árvores uma menina, porém "the girl was never there... it’s always too late. Again and again and again and again".

Passeie comigo pelo meu otimismo. Em "Encontros e Desencontros", há a seguinte cena: de camisa azul, a garota se recosta contra uma ampla janela; atrás dela, a cidade imensa. Desde que vi, a imagem me ficou como símbolo de um tipo de solidão. Como canta o Morrissey, “quando você quer viver, aonde você vai, quem você precisa conhecer?”. Repara na cidade tão vasta e na menina agarrando os joelhos, na posição que, segundo os psicológos, é uma simbolização do feto, da vontade de voltar ao útero, a segurança. É nesse mundo imenso e vasto e não-seguro que, pelo acaso, pelo atalho imprevisto, ela acaba conhecendo uma outra pessoa, tão solitária quanto ela (mas talvez um outro tipo de solidão) e, por algum tempo, esses dois se completam. Nem eu nem Encontros falamos só de amor. Essa completude que pode acontecer de uma hora pra outra está na amizade, nos livros, nos discos, nos desejos... 


Passeie comigo pelo meu pessimismo. Em "Whisky", os únicos sorrisos são os exigidos pelas fotos. O fotógrafo diz: "whisky!", as pessoas repetem: "whisky!", e um sorriso artificial estará para sempre congelado como um sorriso genuíno. Penso que esse é o sentido do filme: essa felicidade aparente que por trás esconde a solidão; ou melhor: como a solidão pode se fazer surgir como harmonia, como conflitos internos podem esvaecer numa sombra de alegria. A história é a seguinte: a mãe de dois personagens morre. Um deles, que mora no Brasil, fará uma visita ao Uruguai, casa de seu irmão mais velho, por causa de uma festa judaica que se passa alguns dias depois do enterro. Esse irmão mais velho resolve pedir a uma funcionária sua que simule ser sua esposa - ao que tudo indica para simular uma vida feliz, completa. Ficam juntos na mesma casa, conversam e acabam viajando juntos. 

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