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Serve the Servants / We're so Starving
A personalidade dos artistas no momento em que são eles mesmos: os shows que levam multidões ao delírio.
Escrito por Duanne Ribeiro em 15/10/2009
Renato Russo (Foto:Divulgação)
Se você considerar shows como eu às vezes os penso - o momento alto de uma espécie de relação de expectativas criada a cada CD e a cada música, talvez também siga algum dos rituais que eu costumo seguir. De acordo com o artista, por exemplo, faço-me acreditar que tenho de estar nas primeiras filas, ou a essência da coisa estará irremediavelmente perdida. Fruir o show é uma questão corporal, eu me digo. Já outros, assistir sentado, à distância, é melhor, para prestar atenção aos sons e às nuances. No meio do povo, fico considerando a reação das pessoas, a emoção expressa neles, as atitudes muito parecidas com as minhas e o modo como todo mundo se reúne e age como coisa coletiva. E há um último ritual, que é o rascunho do artista. Guardar impressões gerais, julgando o que a pessoa pode fazer.

Observa-se quem está no palco como um objeto estranho. Antes, temos fotos e edições: boa parte da sensação que um clipe dá, por exemplo, pode ser causada apenas pela velocidade do corte. Neste clipe do Foo Fighters (1), por exemplo, a banda permanece parada todo tempo, mas, como as cenas seguem frenéticas, tem-se a impressão que é tudo cheio de energia, de violência até, de rock and roll. No show, não há diretores: ali, está a pessoa pura. Outro dia, o Marcelo Camelo comentou algo paralelo para a Folha (2): “... estar no palco é esquisito. Uma vez que a pessoa é colocada naquela situação de observação, ela é um personagem; você é um símbolo, está apontando para outra coisa. Se você é sincero, fica sendo o personagem sincerinho”. Assisto ao indivíduo no palco e construo um "quem" palpável.


Vi os Los Hermanos (3) ao vivo uma vez, não pude deduzir nenhuma personalidade. Percebi as duas personalidades mais fortes da banda - o citado Camelo e Rodrigo Amarante - muito equilibradas no palco: quando um cantava, o outro se posicionava atrás; e notei a atmosfera geral de alheamento, que me parece agora uma tentativa de se anularem como pessoas, de dizerem: somos só nossa música. Não é minha personalidade de artista deduzida predileta. Não é a mentira (?) que prefiro ver no palco. Identifico-me fortemente com os artistas que parecem tomados pela música: B.B. King (4), reagindo a cada nota, como se implicasse, cada uma delas, em uma expressão reflexa; Thom Yorke (5), do Radiohead, movendo-se como se a música lhe violentasse em direção à saída; Thurston Moore (6), do Sonic Youth, causando ruído por tempo sem fim como se estivesse em transe.

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