A personalidade dos artistas no momento em que são eles mesmos: os shows que levam multidões ao delírio.
Renato Russo (Foto:Divulgação)
Se você considerar
shows como eu às vezes os penso - o momento alto de uma espécie de relação de expectativas criada a cada CD e a cada música, talvez também siga algum dos rituais que eu costumo seguir. De acordo com o artista, por exemplo, faço-me acreditar que tenho de estar nas primeiras filas, ou a essência da coisa estará irremediavelmente perdida. Fruir o
show é uma questão corporal, eu me digo. Já outros, assistir sentado, à distância, é melhor, para prestar atenção aos sons e às nuances. No meio do povo, fico considerando a reação das pessoas, a emoção expressa neles, as atitudes muito parecidas com as minhas e o modo como todo mundo se reúne e age como coisa coletiva. E há um último ritual, que é o rascunho do artista. Guardar impressões gerais, julgando o que a pessoa pode fazer.
Observa-se quem está no palco como um objeto estranho. Antes, temos fotos e edições: boa parte da sensação que um clipe dá, por exemplo, pode ser causada apenas pela velocidade do corte. Neste clipe do
Foo Fighters (1), por exemplo, a banda permanece parada todo tempo, mas, como as cenas seguem frenéticas, tem-se a impressão que é tudo cheio de energia, de violência até, de
rock and roll. No
show, não há diretores: ali, está a pessoa pura. Outro dia, o
Marcelo Camelo comentou algo paralelo para a
Folha (2):
... estar no palco é esquisito. Uma vez que a pessoa é colocada naquela situação de observação, ela é um personagem; você é um símbolo, está apontando para outra coisa. Se você é sincero, fica sendo o personagem sincerinho. Assisto ao indivíduo no palco e construo um "quem" palpável.