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Do you understand, Mister Jones?
Em um filme que estuda as várias faces de Bob Dylan, como interpretam os vários olhares que as encaram?
Escrito por Duanne Ribeiro em 22/11/2009
Bob Dylan (Foto:Divulgação)
Este é o terceiro dia em que abro uma página em branco e tento aprisionar Bob Dylan nela. Observo, imóveis, as potenciais letras no teclado. A pauta é: o filme "I’m Not There" (1), de Todd Haynes, que não é uma biografia, mas uma especulação sobre o que seja o seu objeto, partindo da idéia de que não é uno, mas vários: não se trata de um Dylan, e sim muitos. No filme de Haynes, Dylan é dividido: poeta, profeta, fora-de-lei, farsa, estrela da eletricidade. Cada um desses vive seu enredo particular, entrecruzado com a história dos outros; um mosaico, a interpretação do que seria o cantor americano.
Penso que, para tratar dessa pauta, preciso explicar as diferenças de recepção desse filme. Há o espectador que conhece as músicas - o filme é em boa parte feito pra ele. As canções são tocadas inteiras. Letra e enredo do filme se tocam, se interpenetram, servem de explicação e referência um para o outro. Hoje, ouvir algumas faixas me faz lembrar claramente das cenas que vi no cinema, e acabo sendo levado a interpretá-las segundo o contexto que o diretor escolheu. É um ensaio sobre Bob Dylan e, como todo bom ensaio, ele amplia a visão que o público pode ter.

Depois, há o espectador que gosta principalmente de cinema. Há também bastante esmero e acredito que o filme dialogue com algumas referências cinematográficas assim como faz com as músicas. Repare em como cada personagem é retratado. A faceta mais em oposição ao mundo, o poeta, se trata de um rapaz num interrogatório. Não se pode ver quem o interroga, e ele responde com desprezo e descaso. O profeta é o que cria os poemas que explicam o mundo, e sua história se conta em formato de documentário. O grupo de entrevistados fala sobre ele, fotos são exibidas... Ele nunca fala diretamente. O que se retira já a partir daqui? Cada modo de filmar indica, representa, emula: primeiro. o jeito com que o público tratava o artista; segundo: como Dylan se sentia.


E ainda há um terceiro, mas deixemos para mais tarde. Continuando: o fora-da-lei é um velho que se desligou de qualquer coisa. Ele vive em uma cidade inóspita, com pessoas comuns e problemas cotidianos; cidade essa que lembra a idealização, o isolamento, a fantasia que existe em "Peixe Grande" (2), de Tim Burton. Existem os mesmos personagens pitorescos e a transformação da vida por histórias (no caso de "I’m Not There", máscaras). A farsa é um homem sem interesse por política ou seriedades. Sua história é filmada de modo parecido com seriados americanos comuns. O último, a estrela da eletricidade, é onírico, introspectivo, com grande foco na forma. São aspectos coerentes, já que se trata do desacordo de um artista com o que se exige dele. Uma referência direta talvez seja a cena em que Dylan está preso pelo pé, como um balão, balançando ao vento, que é mais ou menos a mesma cena de "Fellini 8 ½" (3), em que o artista é laçado de volta à Terra.

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